O Veneno está na Mesa

 

O Veneno está na Mesa

A força da imagem sobre as palavras tem peso no documentário: O Veneno está na Mesa, assinado pelo cineasta carioca Silvio Tendler .

O Veneno está na Mesa
O Veneno está na Mesa

Não apenas uma, mas algumas vezes, o diretor se utiliza de uma figura forte, que ilustrou o pôster e boa parte da campanha de divulgação de seu média-metragem: um avião espalhando agrotóxicos sobre um prato cheio de alimentos. Cúmulo da expressão popular “uma imagem vale mais que mil palavras”, o desenho é um belo resumo do que Tendler  pretende mostrar em pouco menos de 50 minutos de filme.

 

CHEGA DE VENENO
                                    CHEGA DE VENENO

 

 

 

O Veneno está na Mesa

há muito tempo !

Desde 2008, o Brasil se transformou no país que mais consome agrotóxicos no mundo. A porcentagem do uso do pesticida acima do permitido em alguns alimentos é assustadora. A ANVISA constatou, por exemplo, que o veneno colocado no pimentão extrapola em 80% o nível tolerável. Silvio Tendler constrói seu documentário coletando estes dados temerários, garimpa reportagens na televisão que corroboram sua visão e entrevista agricultores, agrônomos, médicos e outros profissionais afins para montar um mosaico preocupante da questão.

Crédito: Janine Moraes/CB/D.A Press. Brasil. Brasília – DF. Silvio Tendler no 46º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Conheça mais sobre a trajetória deste cineasta no final desta matéria!

A ideia de  Silvio Tendler   é chocar o espectador com todas as informações coletadas. E o intento é alcançado. Quando estamos à mesa, não paramos para pensar o quanto de agrotóxico foi colocado naquele prato de verduras, naquela salada que está sendo ingerida. E engana-se quem pensa que apenas quem gosta do verde em seu prato está a salvo dos agrotóxicos. Um exemplo interessante mostrado pelo documentário aponta que, se o trigo está contaminado, alimentos que utilizam sua farinha também estarão. Portanto, boa parte das massas que ingerimos pode estar igualmente imprópria para a ingestão, tanto quanto um tomate, uma alface ou uma beterraba.

Se não bastassem os números absurdos, Tendler  entende que não basta uma visão macro para fazer com que o espectador entenda a seriedade do problema. Por isso, o cineasta inclui na narrativa histórias humanas, como o caso do rapaz de 29 anos que trabalhava com agrotóxicos e morreu pouco tempo depois do aniversário de um ano de seu filho. Além de ser triste escutar este episódio da boca da viúva do jovem, assusta saber a rápida progressão do veneno no organismo do rapaz.

 

Abrindo e fechando seu documentário com a fala do jornalista e escritor Eduardo Galeano, O veneno está na mesa possui conteúdo pertinente e tem tudo para abrir a mente do espectador sobre o problema grave dos agrotóxicos no país. Curto e direto, o documentário foi sabiamente liberado no  YouTube  desde sua estreia, com o intuito de chegar ao maior número de pessoas possível. Um trabalho consciente do sempre engajado cineasta Silvio Tendler.

 

 

 

Por Rodrigo Oliveira é crítico de cinema, membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.

Fonte:  http://www.papodecinema.com.br/filmes/o-veneno-esta-na-mesa

 

 

Silvio Tendler

O Veneno está na Mesa
O Veneno está na Mesa

 

Conhecido como “o cineasta dos vencidos” ou “o cineasta dos sonhos interrompidos” por abordar em seus filmes personalidades como Jango, JK, Carlos Marighella, entre outros, Silvio já produziu cerca de 40 filmes, entre curtas, médias e longas-metragens.

Em 1981 fundou a Caliban Produções Cinematograficas Ltda., produtora direcionada para biografias históricas de cunho social.

É licenciado em História pela Universidade Paris VII, mestre em Cinema e História pela École des Hautes-Études/Sorbonne e especialização em Cinema Documental aplicado às Ciências Sociais no Musée Guimet, também na Sorbonne.

É dono de um jeito peculiar de fazer cinema. Entre a gestação de uma ideia, sua execução e finalização, muitas vezes contam-se décadas. Tem sempre vários projetos e vai tocando todos ao mesmo tempo.

Parte das pesquisas de seus filmes tem origem no volumoso acervo particular de imagens, com mais de dez mil títulos sobre a História do Brasil e do mundo dos últimos 50 anos.

Tendler é detentor das três maiores bilheterias de documentários na história do cinema brasileiro: “O Mundo Mágico dos Trapalhões” (1 milhão e 800 mil espectadores), “Jango” (1 milhão de espectadores) e “Anos JK” (800 mil espectadores).

Seus filmes “Jango” e “Anos JK”, apesar de falarem sobre o golpe militar de 1964 e a democracia, foram lançados ainda em plena ditadura militar, em 1984 e 1980 (já no período da abertura política e após a anistia, no governo Figueiredo), respectivamente. A partir de então, continuou produzindo uma série de documentários que conquistaram diversos prêmios de público e crítica, divulgando a cultura e a história brasileira para o resto do mundo.

Em 2005 recebeu o Prêmio Salvador Allende no Festival de Trieste, Itália, pelo conjunto da obra. Em 2008, foi homenageado no X Festival de Cinema Brasileiro em Paris, com uma retrospectiva de seus filmes. Ainda neste ano, foi condecorado com a Medalha Tiradentes, da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, por relevantes serviços prestados à causa pública do Estado.

Em 2009 lançou Utopia e Barbárie, filme que Tendler levou 19 anos construindo e que foi filmado em 15 países, tendo sido considerado pelo jornalista Mauro Santayana como uma obra-prima. “Sua visão pessoal do que foram o mundo e o Brasil neste período é antológica, para dizer o mínimo, e representa o clímax de uma carreira.”

De 2011 a 2014, lançou três médias compondo a Trilogia da Terra, que alertam sobre os riscos dos agrotóxicos na alimentação e defendem “um Projeto de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, baseado no fortalecimento da agricultura familiar e na democratização do acesso à terra através da Reforma Agrária“.

Em 2011, Tendler sofreu uma grave doença que o deixou tetraplégico. Após uma delicada operação na medula, ele foi aos poucos recuperando os movimentos e a vontade de fazer novos filmes. O documentário A Arte do Renascimento, de Noilton Nunes, registra esse momento da vida do cineasta.

Grande parte da obra de Tendler pode ser conferida gratuitamente em seu próprio canal no Youtube, Caliban Cinema e Conteúdo .

 

 

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